Nariz!

Nariz!

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Nariz, nariz! Nariz que não se acaba!

Nariz, nariz!
Nariz que não se acaba!
Nariz que se desaba
Faz o mundo infeliz!
Nariz que Newton não quis
Traçar bissetriz,
Nariz, nariz!

Assim, bem assim passei a me referir a minha protuberância nasal alongada e avantajada.

Em tempos de adolescência me preocupei com ela, com seu volume e ângulo.

Naquela idade tudo ficava desproporcional e o senso de estética se aguçou e marcou fundo. Com o tempo e a maturidade, ela, a protuberância, fixou-se no meio da cara e lá ficou sem ser percebida por intervalos de tempos, apesar do desastre estético que apresentava.  Ali ficou meu lindo narizinho maculado com as proporções que a adolescência gerou dentro e fora de mim – ela fora, é claro!

O meio ambiente, melhor, o ambiente do meio onde eu vivi, durante tantos anos, foi camarada e, por costume ou por cortesia nada reclamou. Digamos, oficialmente não reclamou para mim.

Perdão, houve quem reclamasse, sim. Quem lavava meus lenços. Além destas pessoas, que delicadamente se submeteram a dar um tratamento aos lenços, não me lembro de alguém que possa ter se referido ao meu nariz de forma desairosa. Todos foram gentis comigo!

Voltando à adolescência e avançando um pouco mais, lá pelos 18 anos,  tomei conhecimento de fatos da vida, eventos que ocorrem a todos os humanos.  Entre eles, que as cartilagens continuam a crescer enquanto os ossos param a partir de certo momento mágico da vida.

Eu olhava os mais velhos. Meus professores eram observados diariamente. Tantas e tantas vezes tentei medir as orelhas deste e daquele. Calculei, criei métodos para estabelecer a distância entre as asas nasais de alguns deles. Fiz tabelas com os dados coletados, por semanas a fim, para verificar se teriam crescido aquelas cartilagens. Aquelas orelhas gigantes e seus narizes enormes me perturbavam.

Imaginava a utilidade das orelhas grandes, e ficava a pensar nos elefantes que as abanam para diminuir, com a brisa que provocada, a temperatura do sangue que circula por elas. Mas não encontrava, na similaridade com o elefante, qualquer vantagem para os narizes. E permanecia a inquietação com o meu nariz, aquela fixação adolescente.

Entre meus professores um iugoslavo , homem alto, louro, nos seus 70 anos bem vividos com orelhas enormes e nariz… Oh, o nariz do Zver fazia medo! E o pavor me lançava num circo de horrores só de considerar o futuro do meu nariz.

Nariz, nariz que não se acaba!

Cada oportunidade que alguém se metia nos meus negócios eu automaticamente imaginava um nariz ali.

Tira o nariz daqui… Veja onde coloca o nariz? Cuide do seu nariz! Ande na direção do seu nariz! Quantas  vezes me foi dito, aconselhado, e por vezes berrado:”Toma conta do seu nariz!” Claro, nariz figurado!

Tanto esse nariz foi falado, aludido, declamado e citado que se tornou visível ao sol. Isso mesmo, o astro rei acabou por se interessar pela protuberância nasal que lançava sombra sobre o jovem rosto masculino do adolescente, depois do jovem eterno: eu! (Sem vaidades!) E a estrela solar admirou, iluminou, irradiou e…

E um dia uma dermatologista mandou-me procurar um oncologista que me mandou procurar um anestesista e foi marcada a intervenção no nariz para tirar um “cancer de pele”.

Nariz que não se acabava!

Isso mesmo. Meu lindo, querido e até declamado nariz, aquele que o Newton esnobou, ele mesmo foi parar numa mesa de cirurgia.

Vocês verão, meu nariz já não será o mesmo.

Eu que tinha tantos planos para o meu nariz. Tanta preocupação de adolescente. Alguns pesadelos de jovem e especialmente a preocupação de quando eu ficar velho…

É, fiquei velho e mudaram o meu nariz!

Postado por Dorival Leite  em 07/02/2012

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