Aquela doença!

Aquela doença!

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Instruímo-nos, crescemos.

- Morreu? Não diga! Coitado, descansou! – E uma pausa para absorver a notícia.

- Tanto tempo que estava de cama, né? Deus o guarde!

- É. Doença muito triste! – A pausa se alonga para uma pequena lembrança do finado.

- Foi aquela doença mesmo? Deus me livre!

- Foi. Nem fale!

As duas ficam ali juntas, cada qual com seus pensamentos. O defunto finado que já se foi!

- Antes ele que eu, pensa uma delas. Uma doença terrível!

Assim o passado se finou.

- Sequinho! – Confirma a outra, nem pronunciando palavras, só os lábios dizem. – É!

A conversa foi ficando mais amena, entrou pela tarde adentro. Uma prosa de amigas. Vizinhas. Tinha começado assim: – Vim só para uma palavrinha. Estou com roupa na máquina e  volto já, já!

- Você vai comigo no velório? Vai? – A entonação suplicava uma desculpa de não ir.

Ficaram até o sol baixar e cada uma foi para casa, esquecidas do velório e do pobre finado que morreu sequinho. Sequinho daquela doença.

- Não me diga? Daquela doença?

- Foi. Nem fala o nome. ( Dá-lhe se benzer!) Deus me livre!

Assim, bem assim, que a doença inominada, não falada, era referida e culpada por todas as mazelas da humanidade.

Morreu e sofreu? Foi ela que matou!

Por causa disso não falávamos dela. Nem queríamos dizer-lhe o nome. Podia dar azar. “Vai que isso pega!” Ninguém podia nem ver esta palavra escrita.

Cresci nesse meio. Vivi em Minas Gerais, lá era assim também. Morei no Rio Grande do Sul e os gaúchos, pelo menos com aqueles que eu vivi, na campanha, machos e muito apilchados não falavam nela. No interior de Santa Catarina, no meio dos italianos de Ascurra não se falava disso.

Era morte certa. Melhor se matar, diziam alguns. Ninguém pode com ela.

Aí!

Aí, um dia…

Era uma manchinha, um carocinho que coçava algumas vezes na semana. Nada mais. Qualquer coisa como uma espinha sequinha, sem qualquer importância na imensidão de um nariz.

Vez por outra saia uma casquinha e pronto. Tempos se iam sem ser percebida. Depois ficou um vermelho mais forte na asa do nariz que passou a incomodar  levemente.

Um dia a toalha me avisou que havia sangue em algum lugar. Procurei no espelho. Busquei em outros lugares, mas sem óculos não identifiquei coisa alguma. – Vai ver que foi algum pequeno ferimento. E ficou por isso!

Depois a coisa começou a se repetir. O nariz foi apontado como o responsável pelas toalhas com sangue; um pouquinho só!

As fronhas tiveram a mesma idéia da toalha e passaram a avisar que havia sangue durante a noite. Isso minou minha paciência.

Uma dermatologista me deu a sentença fatal:

- Você tem câncer, câncer de pele!

- Câncer!

Não avisamos minha sogra. Não avisamos os parentes mais próximos. Não avisamos minhas irmãs. Cancer!

Graças a Deus que eu mudei!

Já não nos causa tanto medo, esta doença. Já não nos mata antecipadamente esta doença. Vencemos?

Não. Instruímo-nos, crescemos.

Postado por Dorival Leite em 23/02/2012

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