Calçada de minha rua.

Calçada de minha rua.

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Era assim que eles faziam:

Ele e ela arregaçavam um pouco as calças para não as molharem.

Balde, vassoura, escovão, detergente e mangueira e mãos à obra.

Toda  tarde de sexta feira era dia de faxina na calçada.

Só a chuva impedia a litúrgica atividade semanal – lavar a calçada.

Já cansados da vida, já alquebrados pelos dias, ali estavam os dois.

Nunca vi só um deles. Minto. Quando vi, um deles já tinha partido.

Um pouquinho de detergente, para não “esbanjar”. E escovão. Sempre ela com o escovão. Ele ficava na mangueira e no detergente.

- Boa tarde, como vai vizinha? – A cortesia não impedia o trabalho.

- Chover? Não. Esta tarde não chove não. É só uma nuvem preta, já vai embora.

Entre eles uma silente e recíproca cumplicidade. Fruto de muitas centenas de repetição do mesmo gesto, do mesmo testemunhar que comungam da mesma verdade, da mesma forma de viver e ver a vida.

Enchia o balde e com a vassoura ajudava a limpeza.

Calçada rústica, de cimento áspero que acumulava o pó preto do asfalto era esfregada com vigor. Com  vigor dos 77 anos dela, no meio da água que ele mantinha pouca e suficiente para que espuma se formasse.

Coisa de 40 minutos de esforço comum. Sempre os dois.

Ao final a calçada estava limpa. Cada canto foi esfregado, casa rachadura da calçada foi limpo. Retirada a água excedente, recolhiam o material rapidamente e se recolhiam à casa.

O sol se encarregava de secar. Pequenas poças de água formadas próximas do meio-fio eram mais resistentes.

Lá dentro os dois baixavam as dobras das calças, guardavam os objetos e retornavam ao seu afazer infindo, continuado. Num trabalho diário sem fim. Num fazer e refazer todos os dias como quem busca a vida, o viver.

Um copo de água servido por ela. Água retirada da geladeira e misturada com água do filtro,” do jeitinho” que ele gosta. Dois instantes sentados em cadeiras de palha e nova atividade pela frente…

Eles viviam assim. Trabalhando. “Fazendo o que a gente gosta de fazer.”

Sem sentido? Não.

Mas como explicar o  lavar calçadas toda semana? Você consegue explicar?

Assim viviam eles. No sorriso deles uma explicação sem palavras. “É preciso!”

A frente da casa deles é o cartão de visita deles.

Agora a calçada já não tem quem limpe. O fungo pretejou todo o cimento que era cinza claro. As rachaduras têm capim e a frente da casa o mato já fica alto.

 

Postado por Dorival Leite

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