Ônibus.

Ônibus.

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-“Pára na praça Zacarias?” Ela pergunta.

Motorista monossilábico – “Sim!”

Ela coloca o cartão de embarque na maquina que apita, libera a catraca e vai para o fundo do ônibus.

Logo atrás entra outra moça que cumprimenta o motorista e inicia uma conversa longa com ele, após passar pela catraca.

Os pontos de ônibus vão sendo vencidos, com aquele monótono arranca, acelera, freia e pára novamente.

O papo continua. Há risos entre balanços e freadas.

A senhora de idade – idosa é a sua classificação – busca assento no ônibus. Não acha. Todos estão ocupados quer por pessoas da mesma classificação, quer por mais jovens. Estas desviam o olhar para longe, para não verem, não sentirem a pergunta que a idosa lhes faz. São adeptos de uma democracia nova e individualista – cada um faz as próprias regras e as dos outros. Caso de abuso da liberdade. Errado? Errado!

Mas vá mexer com eles! Vá!

Ônibus lotado. Os apoios de mãos estão cheios de mão que se esbarram nas curvas.

O papo encerrou. O motorista parou no ponto da moça. Despediu-se com o tradicional “um beijo!”

No assento logo atrás do meu, uma tele-consultora-emocional-profissional – “ Você chega primeiro nessa que você falou e vai logo chamando  “ na regulagem”, aperta tudo. Depois passa para a outra e faz a mesma coisa. Você não pode deixar passar estas coisas. Tem que amedrontar logo. Mesmo que você só tenha uma semana no emprego. Diz assim ‘ que é que você está falando de mim? Isso vai dar porrada!’. Pegue pesado pra elas entenderem que ali é o seu pedaço. Mas deixa eu desligar que o meu ponto está chegando”. E o tradicional “ um beijo”.

Já passamos pelo centro da cidade.

As velhinhas á saíram. A moça que conversou com o motorista, também. A teleconsultora se foi. Novos passageiros entram e outras conversas vão se desenrolando.

Agora somos poucos no ônibus e a conversa vai rareando.

Na gavetinha de dinheiro do motorista ainda são poucas as notas. O uso dos cartões de embarque facilitou isso. Não se paga mais o ônibus. Compra-se vale transporte no banco. Compra-se um serviço público, paga-se antes!

As conversas acabaram. Somente um “ té  logo. Te vejo amanhã!”. E o ruído do ônibus fica só.

Olho para trás e não vejo mais ninguém. Estou só no ônibus. Eu e o motorista.

O ônibus arrebanhou  passageiros e os espalhou pela cidade. Vai chegando ao final da linha para começar a recolher gente e as espalhar de volta, mas em sentido contrário.

Ônibus semeia  gente pela cidade. Eu desço convencido de ficar. Talvez, na volta passe minutos longos, plantado num ponto para ser recolhido e semeado noutro.

Postado por Dorival Leite em 29/09/2011

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