Na cabeça uma dúvida.

Na cabeça uma dúvida.

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Ela passou a porta de vidro e desceu a rampa andando sem pressa, sem decisão, sem rumo.

Parou no guarda-corpo e o corpo se ajeitou nele. Encostou os cotovelos sobre o cano que serve de corrimão e deixou a paisagem entrar pelos olhos.

Curitiba brilha no sol da manhã. O frescor da luz do novo dia traz o verde próximo com sabor de movimento, com cheiro de asfalto que corre pela Linha Verde.

Longe os prédios apontam o azul borrado de branco que reflete a beleza do acordar preguiçoso da cidade.

Bem distante está seu sentimento, ansiedade que lhe tira o apetite pelo belo, pelo prazer de ver Curitiba amanhecer. Imagens percorrem e acompanham os carros que riscam a sua frente e tingem momentos de histórias, de tristezas e ações. Tudo poderia ser diferente, melhor, mais… Por quê?

Agora é só esperar. A agonia da espera. Três meses desde que apontaram para uma imagem médica e disseram “nós precisamos examinar isso aqui, melhor”.

E vieram os exames, tanto remédio, tantas idas a consultórios, mais exames, terapias. Agora, terminou. Terminou a terapia.

Resta saber se tudo voltou ao normal. Se “estou curada” é que quero saber!

E deixou o olhar levar longe o pensamento por todas aquelas colinas que Curitiba cobriu de cidade.

Em que pensava? Nada. Tudo. Pensando na mãe que envelhece tão rápido, família, irmãos, casa, serviço, coisas, e tanto que a velocidade contrasta com a cidade que a observa parada e tranqüila, embora em seu íntimo muitas vidas fervilhem neste início de dia. Mais um dia.

Para ela, seus 50 anos, cabelos longos e louros, ali na rampa de acesso aos consultórios, é o fim. O fim do tratamento, do se sujeitar à terapia, remédios. O fim. O ponto final.

Vou receber o resultado do médico e chega. O que me disser não importa. Vou viver a minha vida. Chega!

A porta de vidro chama seu nome e o coração acelera. É sua vez. Apanha a bolsa de pano com ideogramas japoneses que ele nunca soube o que dizem e ruma para o consultório. Tem certeza que receberá o “alvará de soltura”, a notícia de que não se preocupe mais, que tudo acabou, que o tratamento foi um sucesso e que nada mais tem a temer.

O “bom dia” e o “como está se sentindo” do médico espantou a paz, a certeza de dentro dela:

-“Minha senhora, nos exames…” Tudo ficou escuro, perdeu a luz, ficou difícil de respirar. Apoiou-se na cadeira e a bolsa de pano caiu no chão.

O médico ainda falava quando o entendimento retornou a se fazer presente naquela conversa:

-“Então, a senhora tomará estes remédios por 3 anos e nós vamos fazendo o acompanhamento com consultas semestrais”. O resto do que o oncologista falou, ela escutou atenta, procurando entender completamente.

Cuidados, dietas, forma de tomar os remédios, tudo, tudinho entendido.

Mas… Ela não sabia, não entendeu, ou o médico não falou. Falou? Não se lembrava mais.

-“A senhora marque com a secretária, na saída, o seu retorno. Não se preocupe, tudo vai dar certo, tudo vai ficar bem”.

-“Mas, eu pergunto ou não?”

Estendeu a mão ao encontro do gesto de despedida do doutor e foi respondendo um obrigado, até mais. E foi-se.

Na cabeça a dúvida. Estou curada?

Postado por Dorival Leite em 06/09/2011

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