Medo de voltar.

Medo de voltar.

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Mulher séria, mulher calada, mulher só.

Ela trabalha todo o dia. Antes das sete da manhã ela já está lá.

Chega cedo, zelosa pela oportunidade que a vida lhe dá agora.

Substitui a diarista. Substitui à altura, com visível vontade de assumir e mostrar-se competente. Ela está lá, todos os dias. Mesmo nos feriados ela quer trabalhar. Desaconselhada, dá seus motivos.

Eram 21 horas daquela sexta feira e ela ainda estava lá. Limpava escadas, limpava chão.

Estranhei aquilo. Passei por ela enquanto varria um corredor da instituição. Cumprimentei, de passagem, com um boanoite. Mas queria mesmo é lhe ver o rosto.

Ainda séria, cansada, e com o olhar preso no rodo e pano de chão. Nem respondeu, ou pelo menos eu não escutei. Talvez tenha respondido para si mesma.

Havia alguma coisa naquele olhar ligeiro que consegui ver, com a luz esparsa daquele lugar. Sofrimento? Não saberia dizer. Resignação, isso havia. Uma dor ou uma decisão dolorida estava ali espelhada naquela cor de olhos e no rosto marcado de anos e de amarguras. Não vi doçura, ou pelo menos não consegui sentir. Havia algo duro. Foi marcante aquela passagem por ela.

Fiz o que devia fazer naquele lugar, naquela noite. Sai próximo das 21:30 horas, destino: casa.

Ela estava ali ainda. Pensei que ela dormisse por ali. Fui embora.

No dia seguinte voltei. Passei pela secretaria e perguntei sobre aquela senhora. Ela estava lavando um carro, com força, e ainda calada, olhos presos no que fazia. Eram 15 horas. Sábado. Estranhei  e ouvi o que o secretário me falou.

-Ela é assim mesmo. Quer trabalhar mais ainda. Não deixa nada para depois, nem para amanhã. Está substituindo a servente-zeladora daqui. Faz tudo. Faz com vontade e se dedica muito.

Disse que ela tem um olhar estranho. Queria dizer que a achei estranha, calada, dura no olhar.

- Ela não fala nada. Só sabe trabalhar. Dia todo, não pára. Não tem nada de social. Ela tem medo de ir para casa. Tem medo dos filhos. Precisa dizer mais alguma coisa?

Fiquei pasmo. Medo de ir para casa; medo dos filhos!

Isso deve ser terrível. Não ter para onde voltar, para onde ir no final do dia. Medo!  Mas ela estava ali, trabalhando ali, fazendo sua vida no serviço de limpeza naquela instituição!

Não ter vontade de voltar para casa, para sua casa, para sua família, para seus filhos!  Terrível! Difícil de aceitar, de compreender.

Pensei em tantas coisas que pudessem levar aquela mulher, aquela mãe,  aquele ser humano não ter o direito de voltar para casa. Não poder voltar para casa. Ter medo!

Fico a imaginar motivos de seu medo. Debaixo de nossos olhos isso acontece, nem sabemos quem possa ser. Mas está acontecendo.

Os filhos não deveriam honrar pai e mãe? Os pais não deveriam merecer de seus filhos a atenção, o carinho e o respeito?

Pelo menos o direito de voltar, de voltar para o seu canto.

Postado por Dorival – 13/09/2011

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