Segundo Lugar.

Segundo Lugar.

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Minha senha para o caixa era 551. Salão de espera repleto. Casa cheia. Isso deveria alegrar a todos, pois casa cheia é sempre alegria.

Não no banco. Casa cheia é tempo parado, sentado, enervado, com aquela campainha avisando que está na hora de mais um seguir para o caixa… e menos um na minha frente.

Mas era casa cheia. Só uma cadeira vazia. Bem na frente, “ na boca do gargalo” por assim dizer. Sentei  lá.

Observei   uma menininha de 5 anos, ao lado de sua mãe, talvez avó. Pedi licença à menina para sentar-me ao seu lado. Envergonhada se enroscou  no colo da senhora. Insisti e recebi um sorriso menina.

-Cumprimenta o homem, filhinha!

Recebi mais um sorrisinho e depois ela deixou-se encantar por mim. Perguntei pelas luvas coloridas que usava. Quis saber se estavam quentinhas as mãos. Ela candidamente me ofereceu a palma da mão, descalçada da luva, para tocar e perceber que estava quentinha. Voltei minha atenção para as meias-calça coloridas e zebradas. Isso a deixou  mais vaidosa ainda.

Bateu a campainha e a senhora se levantou: – Vamos filhinha, dê tchau para o moço.

E lá foram elas.

Número do painel : 540.

Teria muito tempo parado ali esperando pelo  551.

Casa cheia. Logo sentou  ao meu lado, um senhor. 85 a 90 anos pela minha avaliação. Vestido de blusão fechado, com barba ainda por fazer, olhar com um quê de cansado e cabelos poucos.

-Que número está?

Me pergunta apontando para o painel de chamada do caixa e me mostra o seu ticket: 555.

- Está no 541. Vai demorar um pouco ainda. Meu número é 551. Faltam 15 na sua frente.

- Não tem  importância. Eu espero. Falou com voz tranquila, sossegada, de quem já tem a vida resolvida. Um timbre de vovô. Olhou-me e creio me avaliou completamente naquele olhar. Senti alegria no olhar dele. Estava feliz.  Depois ponderou:

-Faz muito frio lá fora. Aqui está gostoso. Respondi convenientemente. Senti o olhar dele pedindo papo. Um papo qualquer. Arrisquei, então:

- Nosso país está melhor agora. Temos,  de alguma forma, garantias de receber a nossa aposentadoria, certo?

- Isso é bom, mas neste país não há lugar para todos.

Estranhei aquela observação, mas mantive a linha do diálogo.

- Há muita gente querendo só para eles. Continou. – Não há lugar para segundo lugar. Quem ficar em segundo está no último da mesma forma. Veja o que aconteceu em 1970, quando o Brasil ganhou da Itália. Eles fizeram a maior festa com o segundo lugar. Se o Carlos Alberto Torres não tivesse levantado a taça pelo Brasil, seria como se não tivesse conquistado nada. Nesse país tem que ter lugar para o segundo colocado.

Nós somos aposentados, só temos este lugar aqui. Só podemos receber. Ac abamos sustentando uma carga muito pesada do país. Mas não somos primeiro lugar, então não somos nada.

Senti  o desabafo daquele homem, daquela história de vida que ali estava.

Já com dificuldades de ver um painel grande, de poder se locomover sem riscos pela falta de visão e debilitado pelos anos. Um homem que aceita o segundo lugar. Aceita o segundo lugar como uma posição digna, já que foi lutada, batalhada, conquistada com tantos anos de vida, de trabalho e atuação. Ali estava o segundo lugar. Um vencedor. Desclassificado ou simplesmente fora da competição.

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Postado por Dorival Leite em 06/08/2011

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