Do céu para o asfalto.

Do céu para o asfalto.

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Final de tarde, mas ainda com algumas responsabilidades para cumprir.

Tinha uma reunião marcada para as 19 horas, na casa do cliente. Discutir algumas coisas, depois ir para casa e relaxar. 

Quarta feira, dia a de descansar um pouco para enfrentar o resto da semana.

Passaria em casa para pegar uns papéis. Chovia uma chuvinha miúda, sem graça que deixava o para brisa do carro cheio de cristais refletindo a luz dos faróis que já estavam sendo acesos.

18:10 da tarde, descendo pela rua já com trânsito furioso, tento fazer a conversão para a esquerda, espero os carros passarem e quando há uma folga confortável  giro e …

E cai uma motocicleta na frente do meu carro. Passa sobre a minha cabeça um homem, motoqueiro e se esbarra no chão ao lado do carro.

Surgiu do nada, de lugar nenhum, sem luz de farol, oculto pelos faróis do carro que lhe vinha atrás ele apareceu, surgiu  e esbarrou da frente do carro.

Pulei do carro, verifiquei que o cidadão estava querendo falar. Dei atenção e supliquei que não se mexesse até chegar socorre profissional. Ele atendeu.

Aí, aí a adrenalina sobrou. Um susto enorme me percorreu o corpo todo. Fiquei pasmo! De onde apareceu a moto? Como eu não a vi? Onde estava?

Claro, tudo claro, ela foi oculta pelo carro, pelas luzes do carro, na semi-escuridão daquela hora do crepúsculo, numa via de muitas árvores. Dava para entender.

Apareceu gente para perguntar, afirmar, dizer, comentar, espalhar versões, etc… O motoqueiro,  ali, ainda sem assistência, e eu no lado dele querendo que o cara não se mexesse, mas rezando para que ele se levantasse e fosse embora. Constrangedora a situação.

Um capitão da Polícia Militar, provavelmente de folga naquele horário, apareceu, fez umas perguntas e imediatamente passou a telefonar para os órgãos de trânsito, do Pronto Atendimento e logo havia autoridades pela região cuidando do trânsito, cuidando das coisas que precisavam ser cuidadas.

E o motoqueiro no chão, e eu cuidando para que ele não se mexesse.

Chegou o SIATE e tudo foi resolvido. Os paramédicos apertaram o cara nas pernas, nas coxas, no tórax. “Dói aqui? E aqui, dói? Não? Só um pouquinho? E aqui? Dói? Muito? E mais aqui?” E o outro paramédico já estava cuidando do pescoço do rapaz. O terceiro já estava com aquela tábua  cheia de furos e em dois tempos estava amarrado e sendo levado para dentro da ambulância,  o motoqueiro.

Fui atrás de um dos rapazes do SIATE e perguntei a respeito do motoqueiro. A resposta,  não poderia ser mais profissional:” Não se preocupe. Não quebrou nada. Vai ficar com um monte de marcas roxas, mas não foi nada!” Bom! Isso era bom!

Peguei um número de telefone com o motoqueiro e liguei. Era do cunhado. Informei que ele iria estar no hospital Cajuru. E o SIATE foi-se.

Mas ainda havia coisas para fazer. Atender o pessoal do Trânsito. Resolver o que fazer com a moto. Chamar a seguradora para encaminhar o carro todo rebentado, atender mais curiosos, avisar a esposa, e desmarcar o compromisso.

E lá se foi a quarta feira de relaxamento.

Uma dupla de curiosas chegou-se a mim e quis saber como é que aconteceu. Já  afirmando que o rapaz da moto estava errado. Porque todos os motoqueiros são assim mesmo, irresponsáveis, e desfilou um monte de coisas. O capitão me tirou daquela fria com uma delicadeza incrível. Chamou a mim e falou qualquer coisa e elas ficaram à margem.

Passados uns minutos me chama uma senhora, de dentro de suas grades, moradora da esquina e me pergunta, com tons de pouca amizade: “O que é que aquelas duas queriam de você?” E já descarregou veneno sobre uma das mulher que eu mal sabia a quem se referia. E a coisa foi “fundo”, “ela matou uma pessoa aqui;  vive dizendo que não teve culpa, eu vi tudo!”, e as coisas foram por aí a baixo…. E para terminar: “Se você precisar de testemunhas conte comigo. Eu vi tudo”. Agradeci e fui dar atenção ao pessoal do Trânsito – por sinal, muito gentis.

Fiquei sem o carro. O motoqueiro deve ter ficado todo roxo. As vizinhas devem ter ficado com a bílis amargando a boca. E o trânsito foi ficando calmo com o passar das horas.

Uma experiência de vida.

Preocupei-me somente com o motoqueiro, mas ainda não sei de onde ele apareceu. Deve ter caído do céu. E não era um anjo.

Postado por Dorival Leite  17/08/2011

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