A negra da Acheropita.

A negra da Acheropita.

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Não era ainda 19:00 horas e a rua estava já tomada pelo povo que veio, como dizem, de todo o Brasil.

Festa de igreja. Festa italiana. Festa no Bexiga. Um festa que se repete há 85 anos.

Muita barraca, muita comida. Fogazza, muita fogazza. As filas enormes para comprar e comer aquela iguaria italiana.

-  Não é pastel, mas é frito, é um… como dizer, uma fogazza, oras! – Me explica um italiano comedor de fogazza.

No meio daquele povão a caminhar pelas ruas e entre as barracas, gente com crianças, namorados, firmemente seguros,  para não se perderem. Gente que sobe, desce, entra e sai de filas, de barracas. “Olha o molho!” Se escuta e se abre uma passagem, magicamente no meio da multidão. É um senhor com uma panela gigante na cabeça que passa sem ser incomodado.

Pratos de maçarrão, sandwuiches, doces, tudo sendo comido ali mesmo na rua.

Uma alegria só, um povo só, embalado pelos alto-falantes no ritmo italiano mais tradicional.

Missa de sábado. Igreja de Nossa Senhora da Acheropita (fala-se aquiropita). Um templo cheio de abóbodas, ricamente adornadas com temas marianos.

Pe. Pedro, orionita,  comunica fácil e animadamente.

A imagem da Virgem de Acheropita aponta para o Menino Jesus que ela sustenta sobre os joelhos. Das mãos da imagem descem fitas brancas e azuis para os devotos beijarem e deixarem,  presas notas de dinheiro. Ofertas.

Quando entrei, pouco antes de iniciar celebração da Missa, já havia um grupo de devotos reunidos em torno da imagem e aos poucos se renovava.

Encontrei um banco para me acomodar com a família, de  4 pessoas. Apertamos-nos  no banco pois já havia outra pessoa ali.

Dos  grupos de devotos ao redor da imagem , saiu uma senhora, alta, morena, bem apessoada, que deixou, no  ponto mais alto das fitas,  uma nota de cem reais pregada e devotamente colocou-se, dois bancos a minha frente onde já haviam duas outras senhoras.

Pessoas foram chegando e ocupando todos os espaços vazios de bancos e corredores.

Ela surge de uma lateral, vai até  a imagem e da sua bolsinha de crochê, tira uma nota dobrada, com cuidado deposita os dois reais na bandeja. Beija com gosto a fita e volta-se para procurar um lugar.

Negra, 70 a 75 anos, cabelos pixaim já esbranquiçados, vestida de calça e blusa descolorida. Nota um lugar e para lá se dirige, ao lado da dama já citada.

Pediu licença com um sorriso que mostrou deficiência dentária. A princípio a dama desconsiderou o pedido. Face à insistência da senhora negra, fez questão de dizer com os olhos que já eram 3 pessoas no banco. Depois percebeu que poderia haver lugar para mais um. Levantou-se, percorreu duas filas de bancos e foi-se se apertar em um banco já com 4 pessoas. Deixou seu lugar para negra.

Ou … Mas não ficou ao lado da negra.

Isso tudo acontecia enquanto o Pe. Pedro proclamava, animado,  Mateus 15, 21-28. Aquela passagem que  uma senhora corre atrás de Jesus e lhe pede pela filha. Jesus para testá-la diz que não é para o povo dela que foi enviado. E diz ainda que não é bom tirar o pão dos filhos para dar aos cachorrinhos. E ela responde: “mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos”.

Ali estava uma mulher de fé. A negra.

Isso me lembrou daquela viúva, do óbulo da viúva. Lembram : Mc 12, 41-44?

Interessante que estes fatos ainda ocorrem, mesmo depois de tanta campanha, de tanta mídia, e com pessoas que estão envolvidas em apagar estas diferenças no meio do povo.

Depois da Missa andei novamente no meio daquela multidão que prestigiava a festa da Senhora da Acheropita em prol das obras sociais da Paróquia orionita.

E lá encontrei a senhora negra. Arrastava um saco de latas de alumínio, com o mesmo sorriso,  pedia passagem para chegar até outra cesta de lixo e lá encontrar o sustento para si e sua família.

Não era só uma devota. Trabalhava ainda.

Postado por Dorival Leite  em 26/08/2011

 

 

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