Vizinhos

Vizinhos

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Tênis branco, bem limpinho, calças de lã em malha preta, por baixo de uma saia surrada e sem cor, com blusa sobre blusa, envolvem a senhora de seus 75-80 anos que anda com dificuldade entre os consultórios do hospital.

O xale que envolve seu rosto e cabeça aquece as orelhas na manhã fria daquele dia de consulta.

A atendente com carinho e atenção, diga-se em sua homenagem: com zelo de filha, chega-se a ela e lhe explica delicada e dedicadamente as ações e procedimentos que devem ser seguidos no seu tratamento. Fala, curvada, com voz clara e próxima do ouvido da senhora para que ouça melhor. Sabe que irá repetir mais vezes e procura, nas palavras, ser entendida,  ao mesmo tempo que busca sinais de estar sendo compreendida. A mão esquerda, delicadamente coloca-se sobre o braço da senhora segurando sua atenção o melhor possível.

Não é a filha, o filho, uma neta que a vem buscar. É o vizinho que se dispôs sair, no frio da manhã (4,5°C), para prestar o serviço àquela senhora.

Manhã fria, sem condução própria, mesmo assim ele está disponível.

Todos trabalham. Estão ocupados e o hospital marcou o horário sem lhes consultar. Além disso, o vizinho é amigo, ele pode fazer isso. Eles não podem faltar ao trabalho, é muito importante. Ela, a avó, a mãe, precisa de alguém que a leve. Que seja o vizinho.

Será que o vizinho trabalha? Será que o vizinho percebe o frio da manhã? O vizinho, bom vizinho agora, bom homem! Deixa sua cama, enfrenta 2 horas de ônibus, na friagem da manhã, larga o seu ofício…

Pegaram ônibus, ainda no escuro da manhã e foram ao hospital. Motorista cuidadoso, parou e esperou que subissem com calma. Vizinho ao lado, apoiando e conduzindo. Algumas quadras a caminhar até a portaria do hospital. Escadas, corredores e finalmente o consultório médico. Esperas, atendimento e exames a serem feitos em outro endereço.

Saúde pública, delicada, sensível, especialmente para aqueles que já não possuem a vitalidade dos 25 anos. Muito delicada!

Saudável convivência familiar em sendo furtada de seus valores mais básicos e fundamentais. A morte chega antes e é anunciada pelo esquecimento, pela falta de carinho, pela desatenção da família àqueles que a geraram.

Ela, balançando-se ritmadamente para facilitar o caminhar, rampa a cima, apoiada no braço do vizinho naquela manhã fria.

Tinha disponibilidade. Não sei,  criou a disponibilidade para ir com a senhora, sua vizinha, até o hospital, naquela madrugada fria.

Disponibilidade, uma atitude. Uma razão para nossa vida, para dar  razões do que cremos.

postado por Dorival Leite  em 18/07/2011

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