Sentados!

Sentados!

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Sentados. Ali, frente para escrivaninha com uma secretária ausente. Está ali, mas não nos vê. 

Ela está, trabalha, quando levanta os olhos vê a TV, o computador. Um móvel que se mexe, fala ao telefone e sem qualquer estímulo percebido sai e desaparece atrás de uma porta.

Sentados. Hipnotizados  pela TV, pela revista velha e ensebada que cumpre a função de apoiar os olhos, desculpa para os neurônios se ocuparem.

Sentados. Ninguém está ali realmente. Só fisicamente estamos ali, eu e mais 10 a 12 pacientes, pacientemente sentados. Longe. Uns no trabalho, uns nas agendas que o dia vai percorrendo e não pode esperar. Outros estão nas contas bancárias. Alguém estaria processando dentro de si os motivos  de ali estar. Mas quase todos estão com pensamento no depois.

Sentados. No depois: “saio daqui e tenho que ir, que fazer…”; “ se der tempo ainda passo no banco, ou  vou chegar no escritório, no contador, na Claudinha, no …”;  “acho que poderia dar uma chegadinha até lá e dizer pra ela que não é mais possível esperar pelo planejamento daquele…; “ “ vou direto pra casa, não volto mais para o trabalho”. E tantas coisas mais…

Sentados. Todos nós calados, apáticos. Aguardamos a nossa vez. Gado!

“ O médico vai demorar mais uns minutos para atender, teve contratempos no hospital, mas já chega!” Falou o móvel  escrivaninha.

Todos os pensamentos são unânimes em conferir o tempo. O tempo que falta para ser atendido. O tempo que já está, sentado, esperando. O tempo que vai esperar ainda. E, que vamos esperar mais… E, como por encanto a individualidade é quebrada. Os olhares dizem sua mensagem e já há uma comunicação:

“Então porque marcar horário para atender?” “Minha consulta era às 14:45!”

“ A minha às 14:50, e a sua?”

“Eu sou um “encaixe”, se alguém faltar…” E muitos olhares são ditos, trocados, gritados naquele silêncio.

“14,45 uma consulta e outra às 14:50? Isso é possível?” “Mas é certo, ela falou isso mesmo”

Sentados. “ Já chegou?” Pergunta a madame apressada que acaba de constatar que vai ficar de pé na sala de espera (belo nome este, apropriado!). Quando sabe do atraso ela sorri um doce sorriso hipócrita e diz – “Ainda bem, o meu horário era 14:40! Ele demora?

E todos, sentados, voltam para sua postura de estátuas.

Nada mais acontece. Mesmo a presença do médico não altera o silêncio e a ausência de cada um ali.

Sentados. Vai-se a oportunidade de comunicar, de exercitar, de praticar o lado humano. De entabular um papo, uma conversa, de conhecer um pouco o mundo que nos cerca e senta-se conosco. Mas sentados estamos.

Dizem que somos fechados.

Ou seria uma forma de proteção, de garantia da intimidade que receamos ser aberta, escancarada ao outro? Não sei.

Dizia-me Mauricio Nienkotter, um vendedor de cosméticos, grande amigo e de fácil comunicação – “Quando saio do trabalho deixo todas as minhas preocupações, problemas, dificuldades no portão da empresa. Levo comigo somente as coisas boas que me aconteceram no trabalho.Faço o mesmo em casa. Assim não entro em casa com os problemas do trabalho, nem levo para ele os problemas de casa. Fica mais fácil, pois o peso deles é muito grande e no dia seguinte eles estarão lá me esperando, é só passar pela porta que eles pulam nas minhas costas.”

Não sei se o Maurício é responsável ou não, tem razão ou não. Mas sei que o sorriso que este amigo fornecia gratuitamente para todos com que com ele conversavam era maravilhoso. Talvez o segredo dele seja outro. Talvez seja aquele do “olhai os lírios do campo, eles não tecem… olhai os pássaros ….”. Talvez!

Dar razão do que cremos é crescer também, comunicar o que somos e o que aprendemos.

Aguardo seu comentário, não deixe prá depois, escreve para nós.

Postado por Dorival Leite em 04/07/2011

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