Bituca

Bituca

0

Uma manchinha  branca, 2,5 cm de papel em forma cilíndrica. Pequena.

O olhar atento. São várias, muitas, centenas, precisamente 197 ao redor do totem que indica a solução, esperança talvez, último porto para tanto que foram tão íntimas delas.

Chego diariamente para acompanhar paciente e lá estão dois, três,  debruçados sobre o corrimão da rampa de acesso. Olhos perdidos em um pensamento ruim, com a vontade brigando com a disposição de ser, de agir. Senhoras de boa idade, homens macilentos com elas nos dedos.

Fumegantes, ainda, são, estilosamente  arremeçadas ao ar e acompanhadas com o olhar no seu vôo. O último vôo. O olhar permanece no vôo, como querendo pará-las no ar e aproveitar a poesia da bituca que se revolve no ar, ainda acesa, com a diáfana fumaça marcando  a momentânea rota naquele prazer pequeno e se precipitando na morte, no nada, no chão para ser pisada, esmagada.

Ora uma ponta de pé, destroçando sua forma, apagando o resto de vida, matando a fumaça. Ali fica, de um lado pendurado sobre o corrimão da rampa, do outro lado a bituca na espera da chuva, a espera do nada menor ainda que se segue a este prazer de ser. É bituca, não é mais cigarro. Deixou de ser, de ser prazer.

Mas esta é uma bituca especial. Não pé uma bituca qualquer.Não é uma bituca adolescente ou imatura. Nem uma bituca experiente, lutadora e prazeirosa. É uma bituca condenada, proibida, uma bituca de despedida. Nunca mais! Acabou! Por hoje não mais!

O médico proibiu. A mulher pediu. Os filhos suplicaram e os amigos já falaram tanto. Agora é tratamento, a decisão foi forçada. Fazer o quê! Ou isso ou bituca!

Do corrimão outra bituca cai na grama, ou no verde que rodeia o totem. Agora são 198.

Mais abaixo, encostado á enorme torre da caixa d´água uma figura peculiar, curvado sobre si mesmo, com roupas simples, embrulhado literalmente sobre andrajos, ele esconde o isqueiro do vento que o proíbe de acender  um cigarro e logo se anuncia o sucesso na fumaça que sobre e desaparece. Ainda curvado, oculta entre os dedos de forma prática a xepa que foi roubada do totem e agora revive mais uns instantes de prazer, de sedução, de ilusão e e acaba igualmente pedindo socorro aos pés do totem.

Depois outra bituca, 199, 200 e amanhã serão mais de 250. Todas pedindo decisão, pedindo cura, pedindo perdão e ajuda.

Você pode se manifestar. Nos escreva.

Postado por Dorival Leite em 29/07/2011

Envie sua Mensagem