Tem um chá quente, aí?

Tem um chá quente, aí?

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Há aqueles que são como andorinhas, aparecem numa certa estação e desaparecem. Somem de repente e voltam um dia como se sempre estivessem por ali.

Eles são de muitos tipos. Os nossos amigos podem ser velhos, ou jovens.

Alguns já são conhecidos de muitos anos. Uns aparecem com freqüência, estão sempre  por ali. Há aqueles que são mais ocasionais, mas que são conhecidos nossos. Eles é que não nos conhecem, esquecem com muita facilidade.

Um que era meio cego, ou essa era a nossa impressão. Chegava muito perto da gente para falar, pedia e depois ficava esperando. Por vezes fazíamos gestos ou perguntas, mas ele não reagia. Talvez deficiência de visão, ou de ouvido, ou de mais coisas, mas estava ali e depois voltava,  passados dias.

Uns querem especificamente alguma coisa: quer comida. Outro quer roupa. Outro ainda deseja um sandwich. Não aceita outra coisa. Há quem pergunte se não tem um copo de leite.

Falando nisso temos um amigo que chega e diz logo: “Tem um copo de leite quente  e um pão com manteiga?” Sem muita atenção levei para ele, num desses dias um pacote de macarrão, pois julguei que ele deve ter família, ou que poderia fazer uma comida em casa. Errado! Ele queria exatamente aquilo que pediu. Rejeitou e me olhou como que dizendo, não está me ouvindo ou é surdo, o velhinho! Fiz que entendi, procurei arranjar o que ele pediu e pronto, ficou satisfeito.

Há aquele que pede um copo de chá quente. Engraçado! Ele pediu nas primeiras vezes café. Tinha que ser café preto. Foi servido e tudo bem.  Ganhou também pão com margarina; sentou-se no chão, comeu como se estivesse em um banquete. Bateu a campainha novamente e pediu para repetir a dose: “pode me dar mais?”  Fiquei num aperto: eu não tinha mais café em casa. O que oferecer? Mas tinha chá. Faço uso de chá que minha filha me manda da Africa. Não custava perguntar: Vai um chá preto? E a resposta foi direta, não é isso que pedi, mas serve. Como ofereci, servi.

Passados uns 15 dias, alguém bate e vai pedindo: pode me dar um chá quente com pão e manteiga? A manteiga é margarina mesmo, nestes tempos de controle de colesterol…. vai margarina por manteiga, mesmo porque não usamos manteiga!

Mas há aqueles que preocupam. Há um deles que aparece muito sujo, muito esculachado, todo mal arrumado, “ levado da breca” e com um baita de um porrete mão.  Este já é “cliente” há bastante tempo. Houve tempo que se apresentava com uma vara na mão, rosto fechado, pedindo como quem exige, nada tranqüilo, mas sempre respeitoso. Pedia, sentava ao pé do portão e aguardava. Não tinha muita paciência, logo batia novamente a campainha, para apressar o serviço.
Com o tempo a decadência foi se acentuando. Não fazemos perguntas para aqueles que não querem dar respostas. Mas a decadência está cada vez mais acentuada.
Foi inútil as sugestões. Ele simplesmente saia, largando o que recebeu e ia embora. E não foi nossa intenção  mandá-lo embora. Ficou  muito mais dias sem aparecer, até que retornou. Aprendemos – ele não quer conselhos, quer comida: assim seja.

Agora ele está muito, muito decadente. Não “ assunta” mais direito. Fala com a sombra, eu acho que é com ela. Briga com um amigo invisível. Pega a comida que pede e sai sem comer. Não sei se depois ele come.

Este sempre nos pede dinheiro, nunca lhe demos nem a ele nem a outros. Já nos pediu roupa e lha demos, porém não vimos usando-as. Tudo bem.

Há pessoas que pedem porque precisam. Há pessoas que pedem porque não sabem fazer outra coisa. Há pessoas que pedem por hábito. Há pessoas que pedem por compunção. Há pessoas que pedem porque estão desorientadas, nada sabem mais da vida; algumas perderam a esperança, algumas perderam a razão, algumas … Tantas que ainda chegam aos nossos portões.

Atendê-las todas? Encaminhar para entidades que possam ajudar estas pessoas de uma maneira mais eficiente, mais concreta, que possam quebrar esta engrenagem que a fome impõe a estas pessoas que são como nós, humanas, filhas do mesmo Deus, nossas irmãs? Nem sempre se consegue chegar além da fome, ou melhor, por vezes a fome não permite que se chegue até elas.

Foi desse exercício do portão que aprendi a importância do nosso centro Social Santa Rosa de Lima. Foi vendo que ali se faz alguma coisa que quebra este seqüenciamento de fome que puxa miséria, que puxa ignorância, que puxa bebida, que puxa droga, que puxa família destruída, que gera mais  e mais problemas para estes irmãos.

Vendo o exemplo daqueles que se dedicam a tantos e pobres irmãos fica o questionamento de Pedro na sua carta: “ estai preparados para dar razões de vossa esperança”….

Vamos comentar estes fatos?

Postado por Dorival Leite em 20/06/2011

COMENTADO – MARILDA EM 11-08-2011

A sra Marilda, esposa no Onorival – diácono da nossa paróquia, me parou na calçada, frente da casa dela para me relatar uma história sobre o nosso blog.

Conta que lendo o blog, achou interessante o que foi postado em  18 de julho/2011 sob o título Tem um chá quente, aí?

Falou-me que deve ser a mesma pessoa que costuma chegar em seu portão e fazer os mesmos pedidos, mas com variação do que pede.

Pede para ela uma bicicleta. Ele quer uma bicicleta. A sra Marilda não tem uma bicicleta para dar para ele. Nem sei quantas pessoas possuem uma bicicleta para dar a quem passa pelo portão e faça este pedido.

Para mim ele sempre pede chá. Pedia antes café, mas um dia ofereci chá e ele gostou. Eu também gosto. Cada um tem seus gostos, mas podemos oferecer o que gostamos para os outros e eles podem mudar de idéia. Eu consegui.

Mas no caso da bicicleta solicitada a sra Marilda está procurando para satisfazer ao pedindo. O que ficou mais interessante é que ele ofereceu uma blusa para a sra Marilda, querendo que ela a comprasse.  Ela não quis comprar, deu uma desculpa e não quis comprar. O pedinte insistiu e como viu que a senhora não tinha condições de comprar resolveu, vejam só, doar a blusa para a sra Marilda.

As pessoas, mesmo carregando um porrete na mão e tendo um aspecto ameaçador possuem seus gestos diferentes. Claro que a sra Marilda recusou aceitar. Aconselhou-o  a vestir a blusa, pois o dia estava mais fresco.

Ele repensou e acabou ficando com a blusa e foi  embora.

Seria a blusa uma doação de algum “freguês” do nosso pedinte que o presenteou e que ele já estava negociando? Talvez não, podemos dizer a favor dele – o rapaz tem bom coração.

Obrigado, sra Marilda por nos confidenciar fatos que não fazem a História, mas que fazem histórias para pessoas viverem.

Comentado por Dorival em 12/08/2011

Leia mais: http://missasaletteonline.webnode.com.br/news/tem-um-cha-quente-ai-/

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